Da Faculdade Santa Casa BH ao Instituto Pasteur: a trajetória de Lucas rumo ao doutorado no exterior
Publicado em 10/08/2026. Atualizado em 10/08/2026 5:39:42
Eram seis horas da manhã de uma segunda-feira em Belo Horizonte quando Lucas se preparava para uma entrevista decisiva. Do outro lado da tela, um pesquisador do Instituto Pasteur, em Paris, fazia perguntas sobre inteligência artificial e sobre sua trajetória acadêmica.
Meses depois, Lucas desembarcava na capital francesa para iniciar seu doutorado no exterior, em uma das instituições de referência no estudo de microrganismos. Esta é a história de como um aluno do mestrado da Faculdade de Saúde Santa Casa BH transformou seus estudos em uma oportunidade internacional — e o que sua jornada revela sobre a força da pesquisa científica no Brasil.
O fascínio pela ciência e a escolha pela instituição parisiense

A relação de Lucas com o instituto francês começou antes mesmo da vida acadêmica. A semente foi plantada no oitavo ano do ensino fundamental, durante uma aula sobre pasteurização. “Lembro que a minha primeira obsessão pela ciência foi ali, quando a professora explicou como ele descobriu o processo”, conta.
Anos mais tarde, já pesquisador na área de doenças infecciosas, aquela lembrança ganhou um novo significado. Como o centro de pesquisa é uma referência global em sua área — responsável, historicamente, pelo desenvolvimento da vacina contra a raiva —, a instituição se tornou o alvo natural para quem desejava avançar na carreira.
Leishmaniose e microRNA: o impacto da pesquisa em doenças infecciosas
Para entender como Lucas chegou à França, é preciso olhar para o que ele desenvolvia nos laboratórios de Belo Horizonte.

Durante seu mestrado em saúde na Faculdade de Saúde Santa Casa BH, sua pesquisa era voltada para a leishmaniose em cães, uma doença infecciosa que também possui relevância para a saúde humana. Considerada uma das principais doenças tropicais negligenciadas, ela continua representando um importante desafio para a saúde pública em diversos países. O foco do estudo era compreender por que alguns animais apresentam maior suscetibilidade ou resistência à infecção.
Para buscar essas respostas, o trabalho do mestrado envolveu a análise de algumas mutações, buscando entender se elas podiam gerar ou não essa suscetibilidade ou resistência. A sua expertise técnica com microRNAs, no entanto, veio exclusivamente de sua iniciação científica, em uma linha de pesquisa totalmente diferente: um projeto voltado a encontrar biomarcadores para a doença coronariana aguda em humanos. Foi exatamente a junção dessas duas bagagens técnicas que o conectou à vaga na Europa, já que, no doutorado, será a primeira vez que ele trabalhará com microRNAs aplicados à leishmaniose, algo que sempre desejou fazer.
Como a experiência no mestrado aproximou Lucas do projeto na França
O processo seletivo da instituição permite que o candidato se inscreva em diferentes projetos. Naquele ano, 64 opções estavam disponíveis. Uma delas chamou a atenção por unir o estudo da leishmaniose à biologia molecular e aos microRNAs — exatamente as duas bases que Lucas desenvolveu em momentos distintos: a expertise em microRNAs durante a iniciação científica e a atuação com leishmaniose durante o mestrado. A pesquisa de mestrado foi desenvolvida sob a orientação da professora Dra. Fabiana Rocha e coorientação da professora Sabrina Campolina. Vale destacar também o apoio da Profa. Dra. Maria Elena de Lima, que atuou como uma grande mentora nessa fase, trocando ideias e dando dicas essenciais por já ter a experiência de um doutorado no exterior.
Após alinhar sua carta de motivação e passar pelas primeiras etapas com o pesquisador francês, Lucas precisou ser avaliado por um comitê interno. Embora o processo exigisse ao menos duas cartas de recomendação de professores do Brasil, seis orientadores da Santa Casa BH aceitaram escrever recomendações, refletindo a confiança e a sólida rede de apoio construída ao longo de sua trajetória.
O processo seletivo em Paris e a resiliência da pesquisa científica no Brasil

Aprovado pelo comitê, o pesquisador viajou à capital francesa para a etapa final, que exigia a apresentação de sua produção acadêmica em dez minutos cronometrados. Apesar da exigência da banca, Lucas destaca o ambiente acolhedor encontrado no instituto e a receptividade da equipe durante o processo seletivo.
Ainda assim, se a estrutura europeia chamou a atenção, foi a bagagem adquirida na Santa Casa BH que garantiu seu preparo técnico e emocional. Fazer ciência no Brasil exige saber lidar com recursos limitados e prazos apertados. Esse talento para resolver problemas com criatividade formou a resiliência necessária para que ele conduzisse sua candidatura ao mesmo tempo em que lidava com os desafios e os experimentos da reta final do próprio mestrado.
Ele faz questão de separar o resultado de uma suposta genialidade inata. O avanço, segundo ele, foi fruto de disciplina e esforço contínuo em um período de alta demanda acadêmica.
Como um estudante brasileiro consegue ingressar em um doutorado no exterior?
A trajetória de Lucas mostra que o caminho para o exterior é construído muito antes da publicação de um edital. Para quem busca oportunidades de intercâmbio acadêmico, algumas etapas são essenciais:
- Alinhamento de pesquisa: A vaga ideal é aquela que se conecta diretamente com a experiência técnica do aluno. No caso de Lucas, a vivência com microRNA e doenças infecciosas foi o grande diferencial.
- Rede de apoio (Networking): Construir bons relacionamentos acadêmicos é crucial. As cartas de recomendação de seus professores chancelaram sua capacidade perante o comitê internacional. E boas cartas de recomendação só são obtidas quando existe uma relação de comprometimento e confiança interpessoal.
- Preparo no idioma: O domínio do inglês (ou da língua exigida pelo edital) é indispensável para elaborar cartas de motivação consistentes e realizar entrevistas com fluência.
- Resiliência e organização: O candidato precisa ter disciplina para conciliar as demandas do mestrado atual com as exigências de um processo seletivo global.
Intercâmbio acadêmico e o desejo de contribuir com a ciência nacional
Com a ida definitiva para o exterior, Lucas vive a expectativa da nova rotina na Cidade Universitária de Paris e da troca de conhecimento com estudantes de diversas partes do mundo. Contudo, o foco de longo prazo permanece enraizado em seu país de origem. Seu objetivo é concluir o doutorado e aplicar, no Brasil, o conhecimento adquirido durante essa formação, fortalecendo a pesquisa em doenças infecciosas e a saúde pública nacional.
Da entrevista às seis da manhã em Belo Horizonte aos corredores do instituto francês, a trajetória de Lucas mostra que a ciência é construída por quem transforma curiosidade em trabalho contínuo. Além de uma conquista individual, sua história reforça o potencial da pesquisa desenvolvida na Faculdade de Saúde Santa Casa BH para formar cientistas capazes de contribuir em qualquer lugar do mundo.
